Dois clubes históricos que foram obrigados a reinventar-se encheram a bancada do Complexo de Campanhã. Entre memórias de tempos áureos, fica a esperança de um futuro mais promissor.
Complexo de Campanhã, 9 de Dezembro, jornada 15 da divisão de elite da Associação de Futebol do Porto (AF Porto). De um lado, o SC Salgueiros, do outro o Vila FC. Dois clubes centenários, que andaram muitos anos pelos campeonatos profissionais, e que agora se encontram nos distritais. Pelo meio, envolvidos em dívidas e insolvências, ambos tiveram de mudar de nome. O Salgueiros, que em 2015 voltou a ser Comércio, foi durante alguns anos Sport Clube Salgueiros 08. Os seniores do Vilanovense desde 2010 que ficaram reduzidos a Vila FC.
São cerca de mil pessoas que se amontoam na bancada descoberta, sem lugares marcados. Se uma parte significativa não ficasse em pé (ou permanecesse a maior parte do tempo ao pé do bar) não havia lugar para todos. O Salgueiros joga em casa e está em maioria. A claque, Alma Salgueirista, entoa cânticos, toca bombos e lança bombas de fumo vermelho e branco. Em menos quantidade, os cerca de 40 adeptos do Vila procuram bater palmas e incentivar a equipa.
O jogo começa equilibrado, com o Salgueiros com mais bola e o Vila a criar perigo em contra-ataque. O favoritismo está do lado do Salgueiros: o Vila subiu esta época à divisão de elite da AF Porto, enquanto o clube de Paranhos desceu do campeonato de Portugal na época passada. Um revés na estratégia. “Foi um atraso, mas que vamos recuperar o mais rapidamente possível”, assinala o presidente do clube, Silvestre Pereira, apesar de considerar que, com 34 equipas, “para subir um não é nada fácil”.
A intenção passa por chegar aos campeonatos profissionais em “quatro ou cinco anos”, com a II Liga no horizonte: “Queremos chegar lá o mais rapidamente”, afirma o presidente, assegurando que ficaram para trás “os erros de gestão” que obrigaram o clube a “fechar” os seniores em 2004-05, apenas duas épocas depois de terem estado na I Liga.
Longe vão os tempos de glória no primeiro escalão e na Taça UEFA em 1991. Maria Amélia da Costa, de 68 anos, enrolada num cachecol vermelho com o emblema do clube, recorda-se bem. “Tenho muitas saudades dos tempos em Vidal Pinheiro, víamos lá cada jogo”, começa por dizer a adepta que na véspera recebeu a medalha de prata do clube, garantindo que, em 25 anos, só falhou dois jogos, seja em casa ou fora. Não lhe faltam “memórias que nunca mais se esquece”, como um Salgueiros-Boavista, que acabou 3-3: “Foi uma jogatana do caraças”, afirma de sorriso aberto.
Nos tempos difíceis do clube, ia “muito desanimada ao futebol”, mas nunca deixou de gritar pelo seu Salgueiros. E gritou bem alto, ao minuto 24. Monteiro inaugurou o marcador para o Salgueiros. “Grande cabeçada!”, descreve.